Por Vanessa Mendes
De estatura mediana, ombros levemente curvados e mãos inquietas, Coli quebra com a estrutura local e transforma as ruas do Pelourinho em seu local de trabalho. Carregado de pincéis e com seu inseparável chapéu colorido em sua própria aquarela, este artista manifesta sua arte ao ar livre tornando-se parte do cenário local. O sonho de menino fez com que esta simpática ‘figura’ com uma mochila nas costas viesse parar em Salvador. Sua idade, não importa. A escolha do lugar: “Sou apaixonado pela Bahia”. E como veio com a cara e a coragem, nada melhor do que se firmar nas ruas, onde o aluguel é inexistente e seus trabalhos mais humanistas.
O suntuoso prédio que já foi sede da primeira faculdade de medicina do país inspira prestigia Coli em suas feições. Mas a arte nem sempre o conduziu. Coli o pintor já foi simplesmente Coli Cerqueira de Oliveira e tinha a arte como puro hobbie. Nativo da grande Rio de Janeiro vivia como uma pessoa comum e trabalhava em um emprego qualquer. Um belo dia sentiu que faltava algo em sua vida. Então, se desfez de tudo que tinha. Catou alguns cacarecos, poucos reais e de muita criatividade saiu da velha “cidade maravilhosa” com uma mochila nas costas e coragem aventureira.
“Uma opção de vida” e declinando-se lentamente para apanhar o pincel descuidado ao chão, aponta para seu atelier público como se exibisse um troféu. “A intervenção pública faz parte da obra. Tudo isso me inspira. Pinto aqui, as pessoas transitam por mim. Alguns admiram outros simplesmente olham, mas nunca ignoram. Assim sou mais visível”. Mas ir de encontro ao sistema revela-se nem sempre de forma amistosa. Outro dia, estava projetando a ladeira do Pelourinho e um dos fiscais local o abordou. Pintando Coli permaneceu. Então o homem tomou-lhe o pincel e o perguntou se ele tinha licença para instalar-se no meio da rua. “Aqui passa carro, o senhor não pode atrapalhar o trânsito”. Coli retomou seu instrumento e apontou para a placa de metal fincado nas seculares pedras escuras. “Aqui só transitam pedestres” e retomou seu trabalho.
Cada quadro é único. “É impossível produzir a mesma obra. Se sim, não é arte”. O olhar e os detalhes permitem que seus quadros se destaquem dos outros produzidos e também expostos nas ruas do Pelourinho. Seu visinho de profissão relutou muito em ceder um lugar para Coli também expor. Além disso, são poucos os que valorizam a arte de rua. “Eles confundem as coisas. Dentro de uma loja, costumam pagar o preço que pedem. Aqui, quando dou o preço riem e acham caro. Me sinto ofendido, mas já me acostumei com isso. Esse comportamento é normal”.
É fácil de ser seduzido por esse pintor ‘naturalizado baiano’. Além de seu talento e sensibilidade em produzir sua arte, é um perfeito contador de casos. “Sonhei que estava descendo a ladeira do Pelourinho. E no sonho a estatua que fica no prédio da faculdade de medicina olhava para mim. Então ela saltava e me levava para uma outra dimensão. Foi loucura”. Retomou de sua ‘longa viagem’ por volta das cinco e meia da manhã. Três horas antes que o de costume. Esperou clarear e se dirigiu ao Pelourinho. Então deu início a sua mais complexa obra. Queria entender o que tinha sonhado. Decifrar o sonho através da pintura. Preso aos detalhes, levou em media uns cinco dias para concluí-la. E num dia como outro qualquer com o Sol mais quente do que nunca, a colocou em exposição. Pintada com perfeição. Detalhes precisos de uma bordadeira.
Como estava exausto, sentou-se numa lojinha em frente ao seu ‘atelier’. Adentrou a loja para ver a novas mercadorias de sua colega. E no melhor da conversa percebeu que o fluxo de gente dentro da loja estava grande demais. Era a chuva. Ao sair, nada mais podia fazer. Os ‘borros’ tomaram conta da linda obra. Molhado, cuidadosamente retirou os menos afetados. “Esses ainda da para salvar”. “É, esse é um dos riscos que tenho que correr. Nunca mais consegui fazer ouro quadro daquele. Mas nem só de alegria é feita a vida”.
E como todo artista Coli tem sua paixão. “Ah... as minhas baianinhas especiais”. Mesmo se tratando de figuras desproporcionais a casa, ao ambiente pintado, encantam pela beleza e por abusarem de cores fortes. A distorção é proposital. As baianinhas são o retrato de Maria Felipa, uma negra que ajudou em toda estratégia de defesa da ilha de Itaparica durante a luta pela independência da Bahia. “Como não posso escrever na tela, eu pensei em descrevê-la em tamanho na tela. Pensei em descrevê-la em tamanho na grandeza da mulher. Por isso que ela vende bem. Quando se conta a história de Maria Felipa é venda na certa. È um personagem bom. Eu me apaixonei por ela e isso faz com que o publico também se apaixone”.
Caminhando e pintando pelas ruas do ‘Pelô’. Com suas baianinhas repassa um pouco da história do estado que tão bem o acolheu. Envolto pelo mundo da arte, leva a vida sem se arrepender de sua escolha. Seus contos, sua alegria é prestigiada por que se aproxima. E na ladeira do Pelourinho, ao lado da antiga faculdade de medicina, Coli o pintor, se fixa em meio ao cenário transformando-se numa tela vida do real cotidiano do Centro Histórico de Salvador.



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