Macabro, não. Realista. Que neste natal lembremo-nos de valorizar a ceia farta, os presentes oferecidos e recebidos, as amizades verdadeiras, a família, a vida...e lembremo-nos que neste momento, existe alguma família em algum lugar do mundo, sem real perspectiva de ‘ter uma ceia de Natal’.
Retrato de um homem sem perspectiva
Por Vanessa Mendes
E mais uma vez o homem sentou-se no chão. Olhou para o infinito azul como se buscasse lá a solução. Mexe lentamente a cabeça para os lados observando o movimento das ruas. E novamente leva ao rosto as mãos, de forma a cobrir os feixes de luz que ainda arriscam saltar do céu avermelhado. Encostado no concreto frio e mórbido tentava a todo custo, ter um olhar lançado sobre si. Nada mais fazia sentido.
Deslizando contra a gravidade, o homem retomou seu rumo. Fazia o caminho que não queria fazer. Não desta forma. Mais uma vez, pausou os passos e novamente ateou o olhar para o fim de tarde. Queria mesmo era encontrar o que procurava. Meteu a mão direita no bolso. Catou algumas poucas moedas. O som do coletivo o despertou do transe. Entrou. Pagou. Em pé, continuou seu trajeto.
− Com licença. Com licença, por favor?
Desceu. O ponto ficava a duas quadras de casa. Agora uma nova aflição o atingia. “O que vou dizer? Meu Deus me ajude...”. E continuou. Podia ouvir o arrastar da sandália. Com a cara no chão, penetrava a sala. Caminhou direto para a cozinha. Abriu a geladeira, pegou o copo. Novamente entrou em transe. As sandálias ainda o seguiam.
− E ai, conseguiu?
− Não – e o silêncio tomou o lugar. Respirou fundo. Lentamente erguia o copo.
− E agora? O que pretende fazer?
− Não sei. Depois penso nisso – e novamente ergueu o copo. Sentiu os pelos do corpo arrepiarem. Olhou para o copo e pensou realmente o que fazia ali. E novamente o desespero tomou-no por completo. Via a imagem da criança na porta. Seus olhos fixos nas pequenas lágrimas que riscavam o rosto de quem sofria sem ao menos saber o porque. Despejou a água na pia.
Olhou para o lado. Viu o sofrimento no rosto da mulher que tanto amava. E não mais conseguiu sustento. Com as mãos no chão, repetia silenciosamente “Por que? Por que?”. Não sabia mesmo o que fazer.
− E o pão? Como faço?
− Hum... – e novamente meteu a mão direita no bolso da calça. Ainda lhe restavam algumas moedas – Toma, acho que da – e por um instante, um sorriso tímido surgia no rosto da criança.
Seguiu em direção a porta. Andou por algumas horas. Não conseguia tira a imagem da menina. De repente, sentiu um vazio assustador dentro do peito. Buscava ser notado. Queria ao menos uma chance. Só isso. Sentou-se no para-peito da estrada elevada. Olhava para o mundo de carros passando sob seus pés. E por um momento, se viu tomado por uma paz. Sentia um forte vento levando as alturas os cabelos. E suas vistas foram tomadas por uma luz encantadora.
No dia seguinte, estaria em paz. Pela primeira vez, fora identificado em meio aos cidadãos comuns. Um nome era o que tinha. Antes sem valor, agora personificado. Amado dos Santos de Jesus. Pai de família. Desempregado há quase três anos. Quem sempre buscou atenção, agora era símbolo de nacionalidade. Residia não mais uma casa. Agora, habitava as capas dos jornais: “Desesperado, homem morre ao se atirar do viaduto na Av. D. João VI. Mais uma vítima da realidade brasileira“.